FOI-SE O MARTELO

FOI-SE O MARTELO.

A foice e o martelo são os símbolos mais utilizados para representar o movimento socialista e comunista, disseminado principalmente por personalidades como Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Lênin.

O símbolo da foice e do martelo foi criado durante a Revolução Russa, em 1918, quando os trabalhadores russos, liderados por Lênin, acreditavam que só seria possível a vitória do socialismo com a união das forças entre os camponeses e os operários.

O idealizador deste símbolo foi o artista russo Evgueni Kamzolkin, em 1918, que, curiosamente, não era comunista, vinha de uma família bastante rica e era um homem muito religioso. De acordo com algumas interpretações, o símbolo da foice e do martelo teria sido baseado no símbolo da maçonaria, um cinzel e um martelo.

De forma bem específica, para a ideologia comunista, a foice seria o símbolo da força dos camponeses e o martelo dos trabalhadores industriais, assim sendo, a união da foice e do martelo representava a aliança entre os dois tipos de proletariados essenciais para que houvesse a revolução do socialismo e, consequentemente, do comunismo.

Foi-se o martelo na política...

Neste campo, claramente percebemos que se foi o martelo, e já faz tempo. Dos objetivos que se pretendia alcançar com o tal símbolo, tudo ficou muito distante. No campo a foice foi-se, por falta de reforma agrária e de incentivos para a permanência do homem no campo. Nada nos atuais modelos políticos vigentes, se parece com os tais objetivos, e nada nos partidos políticos que se identificam através desses símbolos remontam qualquer um desses valores. Essa é uma triste constatação. A “politicagem” em vigor, se especializou em manobrar as “massas”, coisa típica de governos ditatoriais: “Eu sempre achei mais fácil convencer uma grande massa do que uma só pessoa”, era o jargão frequente nos lábios do ditador Benito Mussolini (01).

Juntamente com a política brasileira também foi-se o martelo, e com ele e pelo mesmo caminho, estão indo as indústrias e os milhões de trabalhadores que voltaram para a miséria causada pelo desemprego que sangra o País. Conseguiram os atuais partidos e o atual modelo político em vigor, retirar “MILHÕES” da pobreza. Retiraram “milhões” em recursos desviados, que deveriam ser diretamente empregados no combate à fome e a miséria, e depositaram em “offshores” (empresas abertas em paraísos fiscais), no mercado da lavagem de dinheiro. Mergulhado está o nosso País numa crise econômica e muitos ainda se perguntam sobre as causas da mesma. Cada dia caímos no descrédito do mercado internacional. Tudo consequência do espírito do capitalismo e sua máxima: “honestidade é útil porque traz crédito” (02). É utilitário, mas é real.

Na busca para se defender das supostas acusações de desvio de recursos públicos, partidos políticos, sem exceção, mergulham num mar sórdido de lama e mentiras sem fim. A pior das mentiras “ é a mentira dita em causa própria” (03).

Existem certas coisas que não se pode mais aproveitar. É preciso demolir, desmontar e colocar outra nova no lugar. Na poesia de Carlos Drummond de Andrade conseguimos alcançar a abrangência dessa verdade:
“Minha mão está suja. Preciso cortá-la.
Não adianta lavar. A água está podre.
Nem ensaboar. O sabão é ruim.
A mão está suja, suja há muitos anos” (04)

No País em que vivemos, na política que toleramos e praticamos, tudo pode acontecer, pois a ética de maior aceitação, que se conhece e se pratica, como bem disse Lucio Vaz: “É a chamada ética da malandragem” (05).

Foi-se o martelo no Judiciário...

E a justiça, como está vendo tudo isso? A justiça é cega! A tal venda que tem como função básica evitar privilégios na aplicação da justiça, parece não estar bem ajustada aos olhos. Pelo menos aos olhos da “justiça” aplicada por alguns tribunais bem específicos.

É na justiça que nos acusa a “consciência” mais dolorida de que “foi-se o martelo”.  Na justiça o martelo é também chamado de malhete. Na imagem do judiciário, o martelo do juiz, todo em madeira, é, juntamente com a deusa Thêmis e a balança da justiça comutativa, um dos mais fortes e conhecidos símbolos do direito e da justiça.

A origem para seu significado é controversa, alguns autores ligam-no à mitologia grega, para a qual a figura do martelo liga-se à do deus Hefesto, divindade do fogo, dos metais e da metalurgia (???), conhecido como o ferreiro divino.

Acredita-se que a batida do martelo do juiz ao prolatar a sentença, percutindo na madeira e deslocando uma massa de ar causando ruído, represente justamente a atuação da norma no mundo real e concreto. É o abstrato, a idéia, invadindo o mundo da matéria. Quando esse martelo não percute na madeira, montanhas de “injustiça” parecem desabar sobre as nossas cabeças.

Quando bate o martelo, o juiz, ao prolatar a sentença decreta que o agente praticou ato ilícito e que houve dano, determinando assim a aplicação da norma proferindo as sentenças.  A batida do martelo, logo após a prolação da sentença, representaria, então, a transformação do mundo material (pelo deslocamento de ar e o consequente ruído) causada pela norma.

Nossa triste realidade em alguns de nossos tribunais (não todos), parece “significar” apenas o deslocamento do “ar” produzido pelo impacto do martelo e nada mais. São dias de ares bastante rarefeitos no judiciário. Foi-se o martelo. Não nos serve e nunca nos servirá de nada uma “justiça aparente”. Já dizia Juscelino Kubitschek “A democracia não vive na aparência. A prática é que lhe compõe autenticidade” (06).

Nem sempre, na política, os que empunharam o martelo foram promotores da justiça. A frase histórica que foi atribuída ao Presidente Getúlio Vargas nos dá conta de que diante das circunstâncias adversas, ele era visto com porrete na mão e dizendo: “comigo é na madeira” (07). Nos deve surpreender a todos que Getúlio Vargas inaugurou a arte de tirar as meias sem descalçar os sapatos (trecho que ficará a cargo de sua livre interpretação).

No Brasil, a política partidária que tem origem nas campanhas eleitorais, acaba por se perpetuar nas estruturas do governo empossado. Por isso não se vai a lugar nenhum. Esquerda ou direita, capitalismo ou socialismo, no Brasil não se percebe diferença alguma. Parece que cada vez mais nos identificamos com a velha anedota:

“Aqui no inferno capitalista eles esfolam você vivo, depois fervem você em óleo e depois o cortam em pedacinhos com uma faca bem afiada.
- Isso é horrível, ele respira fundo. Vou para o inferno comunista!
Ele vai lá e vê uma grande fila de pessoas esperando para entrar.
Fica na fila e, quando chega sua vez na porta do inferno comunista, encontra um velhinho que se parece um pouco com Karl Marx.
- “Ainda estou no mundo livre, Karl”, diz o homem.
- Antes de entrar, quero saber como é aí dentro.
- No inferno comunista, diz Marx com impaciência, “eles esfolam você vivo, depois fervem você em óleo e depois o cortam em pedacinhos com uma faca bem afiada”.
- Mas... mas então é igual ao inferno capitalista! Reclama o visitante.
- Por que então toda essa gente na fila?
- “Bom, suspira Marx, eles têm que ficar na fila, porque sempre “falta óleo, quase nunca temos facas e panelas, e sempre falta água quente”(08).

É comum perceber que por falta de leis mais rígidas, políticos trocam de partidos com uma facilidade que impressiona, testam todos os dias os limites de atuação da justiça com destemor impressionante. Nas palavras de Merval Rosa, o político faz isso porque: “Ele sabe dos limites que a ainda imperfeita democracia brasileira impõe, mas está sempre testando-os” (09).

Foi-se o martelo na religião...

Outro martelo simbólico surgirá quando estudarmos algumas referências que se fazem ao antigo cajado utilizado pelos sacerdotes judeus e cristãos, que, quando presidindo os cultos ou reuniões públicas, o utilizavam para chamar a atenção da assembleia. Na religião, o cajado, ou “martelo”, representa o sinal de alerta, respeito e ordem para o silêncio.

Cultivando e promovendo uma religiosidade bastante “alienada” de tudo que acontece nos bastidores da política e do judiciário, o que percebemos é que o “cajado” da religião conduz somente para o aprisco e não mais para o enfrentamento das graves questões sociais. Parece uma inversão nos anseios do cristianismo: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (João 17.15). Essa foi a oração de Jesus por seus discípulos.

A religião que deveria ter grande influência como “martelo” diante da política, parece recuar ante os desafios do momento. Temos um martelo poderoso: “Porventura a minha palavra não é como o fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a pedra? ” (Jeremias 23.29). Um grande poder que está sendo ocultado por nossa falta de ação. É assim mesmo: “ A fé sem obras é morta”.

Charles Spurgeon em seu sermão pregado na manhã de 24 de abril de 1881, no Metropolitan Tabernacle, defendeu de forma contundente a atuação da religião na política: “Eu tenho ouvido: ‘Não traga a religião para a política’. É precisamente para este lugar que ela deveria ser trazida e colocada ali na frente de todos os homens como candelabro” (10).

Atribui-se a Martin Luther King uma frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons” (11). A frase é perfeita! É sob o silêncio cúmplice dos decentes que alguns dos maiores crimes acabam sendo perpetrados. O martelo que não martela é cúmplice.
Cada dia a sentença parece se firmar: foi-se o martelo! Não somente um martelo, parece que muitos martelos não martelam mais.

Há esperança? “A simples lição de todas as religiões, de todas as filosofias e da própria vida é que, embora o mal possa estar temporariamente desenfreado, o bem sempre conquistará os louros da vitória final”. (Nelson Mandela). (12). Sim! Há esperança.

Eu creio! "A crença na possibilidade de mudanças e renovação talvez seja uma das características determinantes da política e das religiões" (Nelson Mandela), (12).


Para entrar e ser parte de um processo de mudança, o Brasil precisará deixar o papel de antagonista (seja da esquerda ou da direita) e como disse Fernando Henrique Cardoso: “a sociedade assumir seu papel como protagonista” (13) de todo este processo.

Se não houver mais martelos, ainda haverá a foice. Eu creio na existência real desta foice; ela será atuante e muito eficaz no final:

14 E olhei, e eis uma nuvem branca, e assentado sobre a nuvem um semelhante ao Filho do homem, que tinha sobre a sua cabeça uma coroa de ouro, e na sua mão uma foice aguda.
15 E outro anjo saiu do templo, clamando com grande voz ao que estava assentado sobre a nuvem: Lança a tua foice, e sega; a hora de segar te é vinda, porque já a seara da terra está madura.
16 E aquele que estava assentado sobre a nuvem meteu a sua foice à terra, e a terra foi segada.
17 E saiu do templo, que está no céu, outro anjo, o qual também tinha uma foice aguda.
18 E saiu do altar outro anjo, que tinha poder sobre o fogo, e clamou com grande voz ao que tinha a foice aguda, dizendo: Lança a tua foice aguda, e vindima os cachos da vinha da terra, porque já as suas uvas estão maduras.
19 E o anjo lançou a sua foice à terra e vindimou as uvas da vinha da terra, e atirou-as no grande lagar da ira de Deus. (Apocalipse 14.14-19).

Referências.

(01) MILZA, Pierre. Mussolini. Tradução Gleuber Vieira e Alessandra Bonrruquer. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

(02) WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das letras, 2004. P. 45

(03) SILVA. Juremir Machado da. Jango: a vida e a morte no exílio. 5ª edição. Porto Alegre (RS): L&PM, 2014. P. 36

(04) ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova Reunião: 23 livros de poesia. 1ª Edição. São Paulo: Companhia das letras, 2015.

(05) VAZ, Lúcio. A ética da malandragem. São Paulo: Geração Editorial, 2005. P. 228

(06) COUTO, Ronaldo Costa. O Essencial de JK: Visão e grandeza, paixão e tristeza. 1ª Edição. Brasil: Planeta, 2013. P. 230.

(07) NETO, Lira. Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. P. 299.

(08) LEWIS, Ben. Foi-se o martelo: a história do comunismo contada em piadas. Trad. Márcio Luís Penteado Ferrari. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Record, 2014. p. 173.

(09) PEREIRA, Merval. O Lulismo no Poder. Rio de Janeiro: Record, 2010. P.15

(10) FERREIRA, Franklin. Contra a Idolatria do Estado: o papel do cristão na política. São Paulo: Vida Nova, 2016. P. 245.

(11) KING, Martin Luther. A autobiografia de Martin Luther King. Organizador Clay-borne Carson. Tradução Carlos Alberto Medeiros – 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

(12) MANDELA, Nelson. Apontamentos para o futuro: palavras de sabedoria. Tradução Nina Bandeira. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. P. 132

(13) CARDOSO, Fernando Henrique. A Arte da Política: a história que vivi. 8ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.P. 499

CORRUPÇÃO

A CORRUPÇÃO.




Por: Carlos Elias de Souza Santos

A natureza contraproducente das práticas aéticas se manifesta de maneiras muito diversas.
Quando me refiro a práticas aéticas, refiro-me especificamente aqui à corrupção.  Luis Carreto nos diz que “corrupção é um ato ilegal que ocorre quando uma pessoa abusa de seu poder para obter algum benefício para si, para seus familiares ou amigos. Requer participação de dois atores: um que, por sua posição de poder, possa oferecer algo valioso e outro que esteja disposto a pagar suborno para obtê-lo”. (3).

Infelizmente, a corrupção é uma prática social comum em todos os estratos socioeconômicos, na vida cotidiana e em todas as atividades econômicas, sem discriminação entre servidor público, empresário, economia informal e um cidadão comum qualquer – você e eu. E isso nos afeta a todos.

A especificidade do ato de corrupção está em que o depositário da confiança abusa, infringe ou viola (de maneira explícita ou implícita) alguma das regras do jogo pactuado com quem lhe outorgou essa confiança, e que acaba sendo fraudado.

Esse jogo pode ser um conjunto de práticas sociais ou códigos de conduta que operam como pano de fundo, sejam explícitos ou não, para atores ou para os observadores.

O termo “corrupto” pode ser aplicado ao depositário da confiança e ao que instiga ou aceita a fraude, mas não a quem é defraudado, a quem outorgou a confiança e, vendo-a depositada erroneamente, sofre abuso.

Não obstante, a corrupção rompe o tecido social, pois diminui a confiança dos cidadãos nas instituições, no governo e em si mesmos. Além disso, afeta o nível ético da sociedade em seu conjunto. À medida que a corrupção se generaliza, os escrúpulos éticos vão rareando.

Definitivamente a corrupção tem má fama. Quando se descobre um político, um sindicalista ou um empresário corrupto, todos pedimos a mesma coisa: “demissão, rua, cadeia”. Mas a corrupção é um claro sintoma de que alguma coisa funciona mal. A corrupção é por equivalência como a “infecção” no corpo humano.

Quando se deu a queda do comunismo, muita gente atribuiu à corrupção: o “poder” havia corrompido os camaradas. Até na China, onde a corrupção é castigada com pena de morte, registram-se graves casos de corrupção.

Seria a corrupção uma enfermidade de determinados regimes políticos? Não totalmente.

A corrupção instalada no estado, por exemplo, é um sintoma que nos indica que existem um excesso de leis inúteis que comprometem o bom funcionamento dos assuntos econômicos. Numa sociedade regulada por um grande excesso de leis inúteis, gastamos tempo demais em tarefas e processos inúteis, aumentamos os custos, e quem lucra e se torna o grande beneficiário disso tudo é o legislador e o funcionário. Caso bem tipificado no Brasil.

É assim que a corrupção alcança pessoas e empresas. Elas se iniciam no mundo da corrupção quando precisam “burlar este excesso de leis” falseando sistematicamente sua contabilidade, na tentativa de pagar menos impostos em face da alta carga tributária e assim por diante.

Percebemos diante dos fatos, que a corrupção é facilmente aprendida, e amplamente aceita, conquanto decidimos fechar os nossos olhos para o grau de dificuldade presente em nosso sistema governamental extremamente burocrático e vorazmente tributário.

A infraestrutura que sustenta a corrupção é a burocracia. Burocracia que facilmente promove a impunidade e a protege. “A burocracia tanto pressupõe a existência de informações – o suprimento indispensável para a usina do administrador – quanto viabiliza a criação de mais informações” (1).
Em se tratando de corrupção, a orientação para não se fazer escola nesse “mercado negro”, é procurar se associar as pessoas de caráter admirável e de sabedoria comprovada evitando as más companhias. Este é um bom conselho. “O caminho do insensato é reto aos seus próprios olhos, mas o que dá ouvidos ao conselho é sábio”. (Provérbios de Salomão 12.15).

Hesíodo acreditava que: “O homem virtuoso é aquele que pensa por si mesmo, refletindo sobre o que será melhor mais adiante no final. Também é bom o homem que atende aos conselhos dos homens sábios. Porém, quem não pensa por si mesmo, nem retém em si os bons conselhos, esse é um homem inútil” (4).

Outra forma de procurar fugir das garras da corrupção é prestar bastante atenção aos detalhes. – Essa é uma prática muito boa. Um pequeno detalhe pode não ter importância, mas a soma de muitos pode. Preste bem atenção: “...Todo o aumento de regulamentação governamental sobre a vida implica uma remoção de certa medida da liberdade humana. Quando pequenas perdas de liberdade ocorrem repetidamente ao longo de anos, pode acontecer de as pessoas se tornarem escravas do governo sem perceber” (6)

O senso comum parece acreditar e difundir, que a corrupção é causada pelo governo e que basicamente será resolvida através do governo. Sugiro analisarmos essa crença popular considerando basicamente três tipos de governo:

- O governo de si mesmo, que diz respeito à moral;
- A arte de governar adequadamente uma família, que diz respeito a economia;
- A ciência de bem governar o Estado, que diz respeito a política.

Essas artes de governar postulam uma continuidade essencial entre elas, e aqui se estabelece uma continuidade ascendente e descendente (2).  

A continuidade ascendente ocorre no sentido de que, aquele que deseja “Governar o Estado”, deve primeiro saber se governar, governar sua família, seus bens, seu patrimônio.

A continuidade descendente ocorre no sentido de que, quando o Estado é bem governado, os pais de família sabem como governar suas famílias, seus bens, seu patrimônio e por sua vez os indivíduos se comportam como devem.

São essas linhas ascendentes e descentes que se repercutem na conduta dos indivíduos e na conduta do Estado enquanto Governo.

Se você deseja ver modificado o atual quadro de corrupção, então será preciso investir primeiro no “governo de si mesmo”, no governo que diz respeito à sua moral.

Dietrich Bonhoeffer, ao tratar do tema moral nos diz que:  “Não há dúvida de que ocorrem situações e épocas em que a moralidade não é algo natural, seja porque não é praticada, seja porque se tornou questionável em seu conteúdo. É nesses tempos que o ético se constitui em tema. Por um lado, isso provoca uma refrescante simplificação dos problemas da vida, uma redução a linhas mestras, uma obrigação de adotar claras posturas e decisões de foro íntimo” (5).

Na arte de governar adequadamente uma família, -que diz respeito a economia, Confúcio dizia o seguinte: “Pratique a fraternidade com a família e o altruísmo com as pessoas e você estará contribuindo para o governo’. Isso também é contribuir com a sociedade, não é preciso estar no governo” (7).

Na ciência de bem governar o Estado, que diz respeito a política, lembre-se do que disse Confúcio: “Para governar um Estado, seja digno e honesto nos negócios, seja moderado nos gastos, ame a todos e só convoque o povo se for necessário” (7). 

Não é nada fácil governar, quanto mais governar bem, quando o alvo é o Estado Replubicano. Especialmente uma República com tão graves problemas históricos como a nossa: “Como é possível fazer uma república de um país vastíssimo, desconhecido ainda em grande parte, cheio de florestas, infinitas, sem população livre, sem civilização, sem artes, sem estradas, sem relações mutuamente necessárias, com interesses opostos e com multidão...sem costumes, sem educação, nem civil nem religiosa e hábitos antissociais” (12).

 Um caminho estreito e longo a ser percorrido no combate a corrupção passa pelos trilhos da Educação. É preciso despertar cada ser humano e torna-lo num cidadão capaz de expressar toda a sua dignidade humana. Nas palavras do Rabino Nilton Bonder: “Entre uma moral e outra o ser humano volta a se despir e, desperto, se recorda de sua alma. A esse despertar se referia o maguid de Mezeridz: “Um cavalo que se sabe cavalo não o é. Este é o árduo trabalho do ser humano: aprender que não é um cavalo” (15). Essa é uma árdua tarefa.

Um povo sem educação é certamente um povo com pouca ou nenhuma noção.  Dr. Wayne Grudem diz o seguinte: "Infelizmente, a noção de que governantes podem simplesmente "apropriar-se" de dinheiro do tesouro público em benefício próprio e de seus amigos é um valor cultural profundamente arraigado em algumas sociedades pobres. O que chamamos de "corrupção" é amplamente aceito apenas como "a forma de o governo funcionar". (16).

 Muitos acreditam que a corrupção é um problema meramente político, quando certamente não é. Albert Einstein afirma que: “Se considerarmos as condições de vida da humanidade civilizada atual, mesmo sob a perspectiva dos preceitos religiosos mais elementares, não podemos deixar de sentir uma profunda e dolorosa desilusão perante aquilo que vemos. Pois, enquanto a religião prescreve o amor fraterno nas relações entre grupos ou indivíduos, o panorama atual assemelha-se mais a um campo de batalha do que a uma orquestra. O princípio orientador é, em toda a parte, tanto na vida econômica como na política, a luta implacável pelo êxito à custa do próximo. Este espírito competitivo prevalece mesmo nas escolas e, ao destruir todos os sentimentos de cooperação e fraternidade, concebe o triunfo não como derivado do amor ao trabalho sério e produtivo, mas como algo que nasce da ambição pessoal e do medo da rejeição” (8).

Ambrósio de Milão afirmou que o criador, o nosso “Deus ordenou que todas as coisas fossem produzidas, de modo que houvesse comida em comum para todos e a terra fosse a herança comum de todos. Por isso, a natureza produziu um direito comum a todos, mas a avareza fez disso um direito de alguns poucos”. No combate a corrupção precisamos exterminar a avareza e colocar no lugar um pouco mais de coração. Esse é o poderoso e eficaz ensino contido na imortal frase da Raposa, personagem do Pequeno Príncipe: “Só enxergamos com o coração”. “O essencial é invisível para os olhos” (9).  

Em tempos de acentuados níveis de corrupção, grande parte da população parece acreditar que a solução virá através do poderoso “martelo” da justiça. Acredito muito na justiça divina: “E ele fará sobressair a tua justiça como a luz, e o teu juízo como o meio-dia”. (Salmos 37.6).

Preocupo-me muito com a Justiça dos homens. Preococupado com nosso conceito de justiça, faço menção aqui de Blaise Pascal (1623-1662), um dos nossos maiores pensadores, ao filosofar sobre a justiça afirmava que: “É justo que o que é justo seja seguido. É necessário que o que é mais forte seja seguido. A Justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica. A justiça sem força é contradita, porque há sempre maus; a força sem a justiça é acusada. É preciso, pois, reunir a justiça e a força; e, dessa forma, fazer com que o que é justo seja forte, e o que é forte seja justo. A justiça é sujeita a disputas: a força é muito reconhecível, e sem disputa. Assim, não pôde dar a força à justiça, porque a força contradisse a justiça e disse que ela era injusta, dizendo que ela é que era justa; e, assim, não podendo fazer com que o que é justo fosse forte, fez-se com que o que é forte fosse justo” (10). Certamente temos aqui neste texto um ótimo exemplo da “balança” equilibrada da Justiça.

Não se deixe enganar. Há muitos que sobre este assunto se enganam: “E ele se engana fortemente, se acredita que a autoridade é mais forte e mais firme quando repousa sobre a força do que se estabelecida sobre a afeição”. (Terêncio, Adelfos, I, I, 40).

Em tempos de grande crise política, onde estão cada vez mais evidentes as vísceras da corrupção, a população pode e deve apoiar-se nas Escrituras Sagradas: “Entre vocês há alguém que está sofrendo? Que ele ore... (Tiago 5:13). Lembre-se do que disse John Knox: “Problemas e dificuldades são as esporas à oração, pois, quando o homem, cercado de todos os lados por veementes calamidades, aborrecido por solicitudes contínuas (não tendo, no ser humano, esperança de livramento, estando com o coração oprimido e magoado, temendo ainda maior castigo a seguir) clama das profundezas da tribulação, a Deus, pedindo consolo e sustento, tal oração ascende à presença de Deus e não voltará vazia” (11).  Reconhecemos que “As tentações e tribulações provam o homem e mostram quanto ele progrediu. Sua recompensa assim é maior, e as virtudes recebidas se revelam plenamente.  Não é também grande coisa ser o homem devoto e fervoroso em momentos de tranquilidade. Se, contudo, em tempos de adversidade ele se portar com paciência, então há esperança de grande progresso na graça” (14).

Nosso desejo nestes dias é: “Que a falsidade, a ambição e o ódio sejam destruídos na noite da Razão, até que a fraqueza se transforme em poder, até que a escuridão se transforme em luz e tudo o que está errado fique certo! (Bruno –  no conto Sylvie e Bruno) (13).

Se este texto fosse um discurso, o que não é, eu o terminaria como o grande estadista, que ao encerrar sua fala disse: “- Que esta nação, com a graça de Deus, renasça em liberdade – e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra”.  Esse foi o desejo de Abraham Lincoln, por ocasião de seu discurso de Gettysburg – em 19 de novembro de 1863. 

Gostaria que cada brasileiro desejasse o mesmo nestes dias tão difíceis.

REFERÊNCIAS:

(1)    VAN CREVELD, Martin. Ascensão e declínio do Estado. Tradução Jussara Simões. São Paulo: Martins Fontes, 2004. P.201
(2)    FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Organização, introdução e revisão Técnica de Roberto Machado. 3ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.P. 412
(3)    CLAVO, Luis Carreto. Aristóteles para executivos: como a filosofia ajuda na gestão empresarial. Tradução Luis Reyes Gil. São Paulo: Globo, 2008.
(4)    Hesíodo. Teogonia: Trabalhos e Dias. São Paulo: Martin Claret, 2010. Pg.76.
(5)    BONHOEFFER, Dietrich. Ética. 10ª Ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2009. Pg. 169.
(6)    GRUDEM.  Wayne. Política `Segundo a Bíblia. Princípios que todo o cristão deve conhecer. Tradução de Susana Klassen. São Paulo: Vida Nova, 2014. P. 134.
(7)    CONFÚCIO. As lições do mestre. Tradução André Bueno. 1ª Edição. São Paulo: Jardim dos Livros, 2013.
(8)    EINSTEIN, Albert. Como Vejo a Ciência, a Religião e o Mundo. Tradução José Miguel Silva e Ruth San Payo Araújo. Lisboa – Portugal: Relógio D´Água Editores, 2005. Pg. 282.
(9)    SAINT-EXUPÉRY, Antoine. O Pequeno Príncipe. Tradução André Telles, Rodrigo Lacerda. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.Pg. 94
(10)  PASCAL. Blaise. PENSAMENTOS. Trad. Paulo M. Oliveira. Bauru-SP: Edipro, 1995.Pg. 203. Artigo XXIV – Da Justiça.
(11)  KNOX, John. A Treatise on Prayer, or, a Confession and Declaration of Prayers, Citado em Selected Writings of Joh Knox: Public Epistles treatises and Expositions to the Year 1559 (Dallas: Presbyterian heritage Publications, 1995). Pg. 6.
(12)  Do panfleto de José Antônio Miranda, Publicado no Rio de janeiro em 1821. (Citado em Laurentino Gomes. 1822. 2ª Edição. São Paulo: Globo, 2015. P. 64).
(13)  CARROL, Lewis. (Charles Lutwidge Dodgson) Obras Escolhidas: Sylvie e Bruno. Tradução Maria de Lourdes Guimarães. Lisboa: Relógio de água editores, 2014. Pg. 330
(14)  KEMPIS. Tomás de. IMITAÇÃO DE CRISTO. Livro 1 - Conselhos úteis para a vida Espiritual. Clássicos da Literatura Cristã. Trad. Almiro Pisetta, Antivan Guimarães. 1 Ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2015. Págs. 409-410.
(15) BONDER, Nilton. A Alma Imoral. Traição e Tradição através dos tempos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Págs 65-66.
(16)  GRUDEM, Wayne. A Pobreza das Nações. Uma Solução sustentável. Trad. Lucas G. Freire. São Paulo: Vida Nova, 2016.Págs. 237-38


LEVANDO DEUS A SÉRIO

LEVANDO DEUS A SÉRIO.



TEXTO:
“A minha alma tem observado os teus testemunhos; eu os amo ardentemente”. (Salmo 119.167). (ARA).
“Obedeço aos teus testemunhos; amo-os infinitamente! ”. (Salmos 119:167). (NVI).

Você sabia que dos 1.189 capítulos espalhados por 66 livros esse Salmo 119 é o mais longo?
Este Salmo é um acróstico, com 8 versos em cada estrofe. Esses 8 versos começam, cada um destes respectivamente, com a mesma letra do alfabeto Hebraico.

São 176 versos e todos eles voltados para a Palavra de Deus.

O SALMO 119 É UM POEMA DE AMOR PELA PALAVRA DE DEUS.
Um lindo e muito bem escrito poema de amor.

Há poemas muito ruins.

Este por exemplo é um poema de um homem revivendo toda a sua genialidade romântica.

Veja! Há uma vaca solitária
Feno! Vaca!
Se eu fosse uma vaca, essa seria eu
Se o amor é o oceano, eu sou o Titanic
Querida, queimei a minha mão
Na frigideira do nosso amor.
Mas ainda assim isso é melhor
Do que o chiclete que nos mantêm juntos.
No qual você pisou.

POR OUTRO LADO, há poemas muito bons.
Creio que todos aqui sabem avaliar um poema bem escrito:

Um bom exemplo é o SONETO 116 DE SHAKESPEARE:
“De almas sinceras a união sincera nada há que impeça: amor não é amor se quando encontra obstáculos se altera ou se vacila ao mínimo temor”.

O SALMO 119 É UM LINDO POEMA SOBRE A PALAVRA DE DEUS.

Veja o que diz o salmista a partir do vreso:
129 Os teus testemunhos são maravilhosos; por isso lhes obedeço.
130 A explicação das tuas palavras ilumina e dá discernimento aos inexperientes.
131 Abro a boca e suspiro, ansiando por teus mandamentos.
132 Volta-te para mim e tem misericórdia de mim, como sempre fazes aos que amam o teu nome.
133 Dirige os meus passos, conforme a tua palavra; não permitas que nenhum pecado me domine.
134 Resgata-me da opressão dos homens, para que eu obedeça aos teus preceitos.
135 Faze o teu rosto resplandecer sobre o teu servo, e ensina-me os teus decretos.
136 Rios de lágrimas correm dos meus olhos, porque a tua lei não é obedecida. (Salmos 119:129-136).


Ao ler o Salmo 119 creio que você será exposto a pelo menos 3 tipos de reações.

1)   A primeira reação é: SIM, ISSO AÍ.
Esse é o cético e escarnecedor. Ele está dizendo é bom pensar que o povo antigo tivesse tal respeito pelas leis. Mas hoje não devemos levar essa coisa muito a sério.

2)   A segunda reação é: OH, HUM.  
Você não tem nenhum problema em acreditar na Bíblia. Você até tem a Bíblia em alta conta. Mas na prática, você acha a Bíblia um livro irrelevante e tedioso.  Que texto chato! Que texto longo. Gosto mais do Salmo 23.

3)   A Terceira reação possível é: SIM! SIM! SIM!.
SIM! É o que você sempre grita quando tudo no Salmo 119 soa verdadeiro. Quando o Salmista e você se identificam em suas paixões e afeições. Digo SIM! Como quem diz: “amo este Salmo porque ele dá voz à canção em minha alma”.

Verso: 97 Oh! Quanto amo a tua lei! É a minha meditação em todo o dia.
Diante desta verdade eu digo: SIM, SIM SIM!

Imagino que, quando o salmista escreveu este Salmo, ele tentou nos convencer de que estava convencido de que:
- A Bíblia não comete erros;
- A Bíblia pode ser entendida;
- A Bíblia não pode ser invalidada;
- A Bíblia é a palavra mais importante para sua vida e
- A Bíblia é o livro mais importante, que pode e deve ser lido todos os dias.

Quando buscamos junto aos comentários informações sobre o Salmo 119, encontramos bastante informação sobre a poesia e nada sobre o poeta:
“No tocante ao autor, nada afirmo, porque não se pode ter certeza quem foi ele. Mesmo através de conjectura provável Os expositores concordam que não se pode chegar a nenhuma conclusão satisfatória sobre a matéria”. (João Calvino).

Este Salmo é fruto da Revelação de Deus, e alcança a cada um de nós, PORQUE O SENHOR NOSSO DEUS INSPIROU HOMENS, ATRAVÉS DA AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO com a sua palavra.
INSPIROU COMO?
Como povo de Deus, nós cremos que:
- “A Inspiração das Escrituras é uma influência sobrenatural do Espírito Santo, exercida sobre os autores da Bíblia, que fez com que seus textos fossem um registro preciso da revelação ou resultassem, de fato, na Palavra de Deus”. (Millard Erickson).

Como está na Sagrada Escritura:
- Toda a Escritura é divinamente inspirada.... (2 Timóteo 3.16).
20 Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.
21 Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.  (2 Pedro 1:20,21).

Hoje pretendemos olhar para o Salmo 119, procurando reconhecer o que devemos acreditar sobre a Palavra de Deus. O que sentir em relação a Palavra de Deus. O que fazer com a Palavra de Deus.
No que eu deveria crer acerca da Palavra de Deus?

PRIMEIRO, A PALAVRA DE DEUS DIZ O QUE É VERDADEIRO.

Assim como o salmista, nós também podemos confiar na Palavra de Deus.

Verso: 42 Então responderei aos que me afrontam, pois confio na tua palavra.

Sabemos através deste Salmo que a Palavra de Deus é inteiramente verdadeira.
Verso: 142 A tua justiça é eterna, e a tua lei é a verdade.

-Não podemos confiar em tudo eu lemos na internet;
- Não podemos confiar em tudo que nos ensinam nossos professores;
- Nós não podemos confiar em nada do que dizem nossos políticos.
- Muitas estatísticas são facilmente falsificadas.
- Fotografias são facilmente adulteradas (Retocadas).

A PALAVRA DE DEUS É INTEIRAMENTE VERDADEIRA.

POR SER VERDADEIRA A BÍBLIA É INERRANTE.

“A inerrância das Escrituras é a doutrina que afirma que a Bíblia é totalmente verdadeira em todos o seus ensinamentos”. (Millard Erickson).

A tua palavra, Senhor, para sempre está firmada nos céus. (Salmos 119:89).
Verso: 96 Tenho constatado que toda perfeição tem limite; mas não há limite para o teu mandamento.
A verdade é a essência da tua palavra, e todas as tuas justas ordenanças são eternas. (Salmos 119.160).

Se você é o tipo de pessoa que quer saber o que é verdadeiro:
-Verdadeiro sobre você;
- Verdadeiro sobre as pessoas;
-Verdadeiro sobre o mundo;
-Verdadeiro sobre o futuro e
-Verdadeiro sobre Deus.

Venha para a Palavra de Deus. Ela só ensina o que é verdadeiro:
Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. (João 17:17).

O reformador Martinho Lutero dizia:
“Quando, porém, o coração se apega à Palavra de Deus, ele pode dizer sem vacilar: esta é a Palavra de Deus, que não pode mentir nem errar, disto estou certo”. (Martinho Lutero)

O Reverendo David Martyn Lloyd-Jones, foi um teólogo protestante na linha calvinista de origem galesa. Durante 30 anos, ele serviu como ministro da Capela de Westminster, em Londres. Ele disse o seguinte:
“Nosso maior problema é que nós não cremos realmente na Bíblia e exatamente no que ela diz. Pensamos que a conhecemos, mas será que nós realmente nos apropriamos dela e de fato acreditamos que é verdadeira para nós? Isso é cristianismo para mim”. (Martyn Lloyd-Jones. 1899-1981).

Um verdadeiro cristão se apropria da Palavra de Deus e acredita que ela é a Verdade.

SEGUNDO, A PALAVRA DE DEUS DIZ O QUE É JUSTO.

O Salmista alegremente reconhece o direito de Deus emitir mandamentos e humildemente aceita que todos eles são justos.
Verso75:  Sei, Senhor, QUE AS TUAS ORDENANÇAS SÃO JUSTAS, e que por tua fidelidade me castigaste.

Verso128: POR ISSO CONSIDERO JUSTOS OS TEUS PRECEITOS e odeio todo caminho de falsidade.

Quase sempre pessoas me procuram para dizer que não gostaram dessa o daquela parte da Bíblia. Não gostam dessa ou daquela parte que a Bíblia diz.
Posso compreender que elas não gostem, mas, não posso deixar de dizer que precisamos obedece-la. Isso é justo! Os preceitos do Senhor são justos.
Por outro lado, quando vejo essas mesmas pessoas obedecendo a Palavra de Deus, mesmo quando não estão gostando, acho admirável esse exemplo de submissão a Palavra de Deus.
Como crentes, devemos ver a bondade e a retidão de Deus em tudo o que ele ordena.
DEVEMOS APRENDER A AMAR O QUE DEUS AMA E A TER PRAZER EM TUDO O QUE ELE DIZ.
O Senhor nosso Deus não estabelece regras arbitrárias. Ele não ordena que sejamos aprisionados e infelizes.
As exigências do Senhor são sempre nobres, sempre justas e sempre retas.

“..os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente”. (Salmos 19.9).

“Filhinhos, ninguém vos engane. Quem pratica justiça é justo, assim como ele é justo”. (1 João 3.7).
“Porque o Senhor é justo, e ama a justiça; o seu rosto olha para os retos”. (Salmos 11:7).

TERCEIRO, A PALAVRA DE DEUS FORNECE O QUE É BOM.

Você pode acreditar, de acordo com o Salmo 119, a Palavra de Deus é o caminho para a felicidade.

1 Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do Senhor!
2 Como são felizes os que obedecem aos seus estatutos e de todo o coração o buscam! (Salmos 119.1,2).

Ao comentar estes versos João Calvino afirma:
“Todos os homens aspiram naturalmente por felicidade, mas, em vez de busca-la na vereda certa, preferem perambular deliberadamente para lá e para cá, por veredas intermináveis, para sua ruína e destruição”. (João Calvino).

A Palavra de Deus é o caminho para evitar a Decepção:
Verso 6: Então não ficaria decepcionado ao considerar todos os teus mandamentos.
A Palavra de Deus é um caminho seguro:
Verso 9: Como pode o jovem manter pura a sua conduta? Vivendo de acordo com a tua palavra.

A Palavra de Deus é o lugar dos melhores conselhos:
Verso 24: Sim, os teus testemunhos são o meu prazer; eles são os meus conselheiros.

A Palavra de Deus é um lugar de Esperança
Verso43:  Jamais tires da minha boca a palavra da verdade, pois nas tuas ordenanças coloquei a minha esperança.

Por que devemos nos remeter a Palavra de Deus?
“Mesmo que você não errasse nem fosse enganado, você deveria ir até a Palavra de Deus, a fim de que não concebesse fantasias, mas ouvisse e soubesse que aquilo que Deus diz é correto, bom e agradável a ele”. (Martinho Lutero).

A Palavra de Deus nos fornece o que é bom. ELA NOS MOSTRA O CAMINHO:
Verso 105: A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho.

Conclusão:

A Revelação de Deus é infalivelmente perfeita. Como povo de Deus acreditamos que a Sua Palavra é confiável em todos os sentidos para falar o que é verdadeiro, ordenar o que justo e nos fornecer o que é bom.

Por que Deus nos deu o Salmo 119?

A Minha conclusão é que Ele nos deu o Salmo 119, porque Ele não é como “Willy Wonka”.

Você se lembra daquele clássico do cinema de 1971?
O livro “Charlie and the Chocolate Factory” - de Roald Dahl, foi escrito em 1964.
Foi este o livro que deu origem ao filme: “Willy Wonka and the Chocolate Factory” – Lançado em1971.
Posteriormente, foi relançado o título: “Charlie and the Chocolate Factory” -  numa nova adaptação do livro, precisamente no ano de 2005.

A versão mais antiga e esquisita foi estrelada por Gene Wilder (1971), e a nova e ainda mais esquisita versão foi estrelada por  Johnny Depp (2005)
No filme, depois que Charlei e o Vovô Joe sobreviveram a penoso tour pela fábrica de chocolates Wonka, eles se dirigem ao local onde deveriam receber o grande prêmio: suprimento vitalício de chocolates.

No final há uma surpresa. Willy Wonka, o dono da fábrica não dá o prêmio ao menino Charlie por uma questão puramente técnica.

O diálogo travado é precisamente assim:
Vovô Joe: E o suprimento de chocolate para o Charlie, quando é que ele o recebe?
Willy Wonka: Ele não recebe.
Vovô Joe: Por que não recebe?
Willy Wonka: Porque ele violou as normas.
Vovô Joe: Que normas? Não vimos norma alguma. Vimos Charlie?
Willy Wonka: Errado, meu senhor! Na cláusula 37 B do contrato assinado por ele, está muito claro que tudo se tornará nulo e sem efeito “se”. – O senhor pode ler com seus próprios olhos nesta cópia fotostática: “Eu abaixo assinado, perderei todos os direitos e privilégios e licenças aqui abaixo discriminados “se”... “fax mentis incendium gloria culpam”... “Memo bis punitor dela cattum”.  Está tudo aqui no contrato. Preto no branco. Muito claro! Vocês roubaram as bebidas gasosas elevantes. Vocês colidiram com o teto e agora ele precisa ser lavado e esterilizado, então vocês não ganham nada. Passem um bom dia!
Vovô Joe: O senhor é um bandido. É uma farsa, um trapaceiro! É isso que o Senhor é.

Interrompo aqui o diálogo.

Sabe querido irmão, aqui temos um equívoco contra o qual precisamos nos cuidar: Nosso Deus não é Willy Wonka.
Deus não tem prazer em deixar ninguém no escuro. Deus não tem prazer em deixar as pessoas sem informação, para no último minuto puxar o seu tapete e negar-lhes a recompensa prometida.
Deus através de sua palavra nos oferece diretrizes claras, sobre quem Ele é, e sobre o que é a Sua palavra.

Vivamos uma vida de gratidão ao Senhor, que nos tem dado ao longo de toda a nossa “jornada” nesta terra, diretrizes muito claras sobre quem Ele é, sobre quem nós somos e sobre a Sua revelação que nos foi entregue através da sua Sagrada Palavra.
Louvado seja o Senhor!


REFERÊNCIAS:
DeYOUNG, Kevin. Levando Deus a Sério. Tradução Ingrid Rosane de Andrade Fonseca. São José dos Campos – SP: Fiel, 2014.
McKINLEY, Mike. Eu sou mesmo um Cristão? Tradução Eros Pasquim Júnior. São José dos Campos, SP: Fiel, 2012.
ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. Tradução Robinson Malkomes, Valdemar Kroker, Tiago Abdala Teixeira Neto. São Paulo: Vida Nova, 2015.
CALVINO, João. Salmos. Série Comentários Bíblicos. Volume 4. Tradução Valter Graciano Martins. São José dos Campos – SP: Fiel, 2009.

MURRAY, Ian H. A Vida de D. Martyn Lloyd-Jones 1899-1981. Uma Biografia. Tradução de Odayr Olivetti, Miriam Olivetti. São Paulo: PES, 2014.

SOBRE ÉBRIOS E SÓBRIOS

SOBRE ÉBRIOS E SÓBRIOS.



“Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem...”. (Efésios 5.18).

Quando o assunto é a bebida, carecemos tratar do tema sobriedade e de seu vício oposto, a embriaguez.

A bebida é a matéria própria da sobriedade:

“Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense (seja sábio, do latim sed sapere) com moderação (sobriedade, do latim sobrietatem), conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um. (Romanos 12.3).

A sobriedade também possui como matéria a própria SABEDORIA e não apenas a bebida ou o vício em si.

A palavra sobriedade parece derivar de medida. É isto que nos é ensinado por Paulo em sua Epístola: “Ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às CONCUPISCÊNCIAS MUNDANAS, vivamos neste presente século SÓBRIA (do latim sobrie), e justa, e piamente”. (Tito 2.12)

Ora, a palavra sobriedade vem de medida, pois chama-se sóbrio quem respeita a medida. Por isso a sobriedade se apropria, especificamente de uma matéria em que é sumamente louvável, observar a medida, como é o caso das bebidas que podem embriagar.

Na verdade, o uso MODERADO de algumas bebidas pode ser bastante benéfico, mas um pequeno excesso já é extremamente nocivo, porque impede a atuação da razão.

Essa é a razão porque a sobriedade tem como objeto especialmente, a bebida; NÃO QUALQUER BEBIDA, mas aquela que POR SEUS VAPORES, pode perturbar a mente, como são o vinho e TODAS AS DEMAIS BEBIDAS EMBRIAGADORAS.

Neste caso, deve-se dizer que tudo o que é propriamente relacionado à TEMPERANÇA é necessário à vida presente e todo excesso é prejudicial. Assim é, necessário o comedimento em tudo e esse é o papel da sobriedade. Um pequeno exagero na bebida prejudica mais do que em outras matérias e, por isso a sobriedade refere-se, especialmente à bebida.

Quando tratamos do tema abstinência, se faz necessário dizer que a ABSTINÊNCIA inclui a comida e a bebida. Assim como no campo da nutrição distinguimos a comida da bebida, assim também distinguimos diferentes gêneros de comida e de bebida. Portanto, se a sobriedade fosse em si mesma, uma virtude especial, parece que seria preciso existir uma virtude especial para toda diferença de bebida e de comida, o que é inadmissível.

É próprio de toda a virtude moral PRESERVAR o bem da razão contra as coisas que podem impedi-lo. Onde houver algo que seja impedimento à razão, se faz necessário uma VIRTUDE ESPECIAL que seja capaz de eliminá-lo. Ora, sabemos que a bebida inebriante impede o uso da razão, porque altera o cérebro com seus vapores. Deste modo, suscitamos uma virtude especial, que extinga esse obstáculo e essa é nas pessoas de boa moral a sobriedade.

Todos sabemos que tanto a comida (glutonaria) quanto a bebida podem de modo geral, impedir o bem da razão, envolvendo-a em excessos de prazer, neste momento deverá entrar em cena a virtude geral da ABSTINÊNCIA. As bebidas inebriantes criam um impedimento peculiar, como foi dito. Por isso exigem uma virtude especial.

A virtude da abstinência não deve atuar na ocupação ou mesmo preocupação com a comida e a bebida enquanto NUTRITIVAS. Mas deve atuar sim, quando comida e bebida podem criar obstáculos à razão.

Sabemos que todas as bebidas que causam embriaguez impedem, pelo mesmo motivo, o uso da razão. A diversidade de bebidas, portanto tem relação apenas acidental com a virtude. Por isso, dada essa diversidade, as virtudes não se diferenciam.

Numa análise fria sobre o tema sobriedade, parece então que o uso do vinho é totalmente ilícito e absolutamente condenável.

Há inúmeros alertas sobre essa ilicitude:

“Ai dos que se levantam cedo para embebedar-se, e se esquentam com o vinho até à noite”. (Isaías 5.11).

Paulo escrevendo aos Romanos:

“Bom é não comer carne, NEM BEBER VINHO, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça”. (Romanos 14.21).

Neste texto, o Apóstolo, não diz simplesmente que é bom não beber vinho. Ele na verdade aconselha que se evite escândalo no uso dele. Vejamos:

“Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado” (Romanos 14:22,23).

Noutro sentido, sobre a boa utilização do vinho, encontramos:

“É ele que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem cultiva, para da terra tirar o alimento: o vinho, que alegra o coração do homem; o azeite, que faz brilhar o rosto, e o pão que sustenta o seu vigor. (Salmos 104.14,15).

Em Eclesiastes lê-se:
“Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com coração contente o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras”. (Eclesiastes 9.7).

Paulo recomenda a Timóteo, em sua questão de saúde, o uso do vinho:
“Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades”.  (1 Timóteo 5.23).

No primeiro milagre de Jesus, sabemos que Ele transformou a água em vinho. Em que espécie de vinho Jesus transformou aquela água? “O diretor da festa” elogiou o noivo a respeito do vinho que havia sido produzido milagrosamente. Ele disse: “Todo outro homem apresenta primeiro o vinho excelente, e, quando as pessoas ficam inebriadas, o inferior. Tu reservaste o vinho excelente até agora. ” — (João 2:9, 10).

As pessoas sabiam bem que Jesus usava o vinho como bebida: “Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e vocês dizem: ‘Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e "pecadores" ’”. (Lucas 7.34).

Notamos claramente até aqui, que nenhuma comida ou bebida, considerada em si mesma, é ilícita, conforme a palavra do Senhor: “Não é o que entra na boca que torna o homem impuro”.

“O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem”. (Mateus 15.11).

Portanto, beber vinho não é, de si, ilícito. Poderá, PORÉM, TORNAR-SE ILÍCITO, para quem se deixa alterar com facilidade por ele, ou para quem fez voto de não o beber; outras vezes, pelo modo de beber, quando se passa das medidas, outras vezes, ainda, por causa dos outros, pelo escândalo que se pode dar.

É aqui que alcançamos dois níveis de compreensão na relação do homem com o vinho:
1) Os que aceitam claramente que não é preciso abster-se inteiramente do vinho, mas apenas do seu uso exagerado. Julgando sua conduta pela SOBRIEDADE. 
2) Outros buscando melhor perfeição e maior sabedoria, se abstêm totalmente do vinho, segundo as condições das pessoas e também dos lugares.

Devemos entender, sobre este tema, que Cristo nos proíbe algumas coisas, como absolutamente ilícitas e outras, como impedimentos para nosso aperfeiçoamento. É nesse sentido que ele veta o vinho, como também as riquezas e outras coisas semelhantes aos que buscam a maior perfeição.
Sendo assim, nos parece que a sobriedade cai bem e se torna mais necessária nas pessoas mais dignas.

Sobriedade tem sido sinônimo de maturidade: “Exorta os velhos a que sejam temperantes, sérios, SÓBRIOS, sãos na fé, no amor, e na constância”. (Tito 2.2).  É por isso, que é requerido ao Bispo que: “...seja irrepreensível, marido de uma só mulher, temperante, SÓBRIO, ordeiro, hospitaleiro, apto para ensinar; NÃO DADO AO VINHO, não espancador, mas moderado, inimigo de contendas, não ganancioso”.  (1 Timóteo 3.2,3). A Bíblia requer daqueles que buscam maior dignidade, total sobriedade.

“As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, NÃO DADAS A MUITO VINHO, mestras no bem”. (Tito 2.3).

A SOBRIEDADE POR SUA VEZ, PARECE IMPLICAR A ABSTENÇÃO DO VINHO. Assim se orientavam historicamente os que ocupavam os lugares mais altos: “Não é dos reis, ó Lemuel, NÃO É DOS REIS BEBER VINHO, nem dos príncipes DESEJAR BEBIDA FORTE”. (Provérbios 31.4). O risco imediato seria perder a sobriedade e comprometer sua capacidade de juízo: “...para que não bebam, e se esqueçam da lei, e pervertam o direito de quem anda aflito”.  (Provérbios 31.5).

Quase sempre o mais comum, é ver o uso da bebida por parte daqueles que desejam não enfrentar a dura realidade de seus problemas:
“...Dê bebida fermentada aos que estão prestes a morrer, vinho aos que estão angustiados;
para que bebam e se esqueçam da sua pobreza, e não mais se lembrem da sua infelicidade”. (Provérbios 31.6,7).

Quando encaramos a SOBRIEDADE COMO UMA VIRTUDE, reconhecemos que a virtude tem dupla relação:
- De um lado, com vícios contrários, excluindo-os; e com as concupiscências, refreando-as;
- De outro lado, com o fim a que ela conduz.

Assim pois, uma virtude pode ser necessária a certas pessoas por duas razões:

PRIMEIRO, por terem maior queda para a concupiscência, que devem dominar pela virtude, e para os vícios, que a virtude deve extirpar. 
SEGUNDO, a sobriedade se torna necessária, sobretudo, para certas pessoas cuja atividade não pode ser cumprida sem ela. O vinho, com efeito, tomado exageradamente, trava o uso da razão. Por isso, a sobriedade é, particularmente, necessária para todos aqueles que tem o dever de ensinar e ser exemplo sempre.

Tratamos sim, na questão da bebida, A EMBRIAGUEZ COMO PECADO: “Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, NEM EM BEBEDEIRAS, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja”. (Romanos 13.13).

A embriaguez é a clara representação da DEGRADAÇÃO do homem que bebeu demais. Este embriagado já não é mais senhor de si. Se o indivíduo alcançasse a embriaguez somente pela força e efeito do vinho, tal embriaguez não seria pecado. (Como se fosse necessário sedá-lo para um procedimento). Contudo, se alcança o estado de embriaguez, pelo desejo e uso desordenado do vinho, por sua vontade deliberada de perder-se na medida de sua sobriedade, tal embriaguez é indubitavelmente pecado. É exatamente neste caso que a insensibilidade se opõe a temperança.  “A luxúria, e o vinho, e o mosto tiram o coração”. (Oséias 4.11).

Ser temperante, contudo, é extremamente difícil, pois os “abstêmicos”, no desejo de serem temperantes, também se perdem no exercício da temperança. Imaginem uma pessoa que considera a possibilidade de abster-se conscientemente do vinho, a tal ponto de prejudicar sua própria saúde; tal prática também não o isentaria do pecado. Sua abstinência é imperdoável, um atentado contra sua própria vida. Vide recomendação de Paulo a Timóteo: “Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades”.  (1 Timóteo 5.23). Nesse caso, abster-se seria um flagrante pecado. Seria um ato de total destempero.

Quando houver o uso voluntário e imoderado do vinho nisso residirá a razão do pecado. A embriaguez para devassidão e o pecado, ocorrem quando se sabe muito bem que a bebida é demasiada e embriagadora e, contudo, prefere-se o risco da embriaguez à abstenção do beber. Atos morais não ocorrem acidentalmente e sem intenção, eles ocorrem direta e intencionalmente. É desta feita que ocorrerá embriaguez pecaminosa. Toda a embriaguez será julgada pelo seu ato precedente e sua degradação consequente.

É exatamente para pecados assim que tal advertência é proferida:
“Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, NEM OS BÊBADOS, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. (1 Coríntios 6.10).

Lembre-se: “O vinho é escarnecedor, a bebida forte alvoroçadora; e todo aquele QUE NELES ERRAR nunca será sábio”. (Provérbios 20.1).

Neste sucinto conteúdo, tão somente procuramos realizar um breve resumo da SUMA TEOLÓGICA VII - DE TOMÁS DE AQUINO nas Questões 149 e 150.

Esperamos que este resumo com comentários e grifo nosso, possam ajudar o leitor a procurar um bom caminho na questão do uso e abstinência de bebidas alcoólicas. Quando o assunto é bebida ainda há muitos que por falta de discernimento: “comem e bebem para sua própria condenação...”. (1 Coríntios 11.29).

Que o Senhor nosso Deus nos dê discernimento.

Pr Carlos Elias de Souza Santos

Referência:
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Volume VII – II Seção da II Parte – Questões 123-189.  2ª Edição. São Paulo: Edições Loyola, 2005.